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      Trânsito: os dois lados da moeda da profissão de motoboy na pandemia, por Márcia Pontes

      Em 2020 já foram 12 mortos em acidentes de trânsito só em perímetro urbano de Blumenau e 50% eram motociclistas. Ontem à noite, um motociclista sob o efeito de álcool colidiu com outra moto causando a 12ª morte, da condutora de 22 anos. Pouco antes, no início da tarde, um condutor de motocicleta colidiu contra um poste na rua José Reuter e deixou mais de 2 mil unidades consumidoras às escuras (973 no bairro Velha e outras 1.535 na Velha Central) por cerca de 4 horas. O fato de ter se evadido do local deixou os moradores ainda mais indignados e questionando os estragos e consequências das colisões envolvendo motociclistas.

      A frota de veículos de duas rodas incluindo motos, motonetas e ciclomotores é de mais de 1 milhão e 125 mil em todo o estado de Santa Catarina, segundo dados atualizados do Detran SC (2020). Em Blumenau eles somam 48.284, o que representa 4,2% da frota estadual. Os dados juntam-se a uma pesquisa sobre o perfil dos motoboys publicada em janeiro de 2020 e junto com alguns bate papos com entregadores de moto durante a pandemia de coronavírus, vamos te ajudar a entender os dois lados dessa profissão perigo.

      Grande parte dos motoboys que fazem serviços e entrega em Blumenau e região trabalha sem carteira assinada, alguns são chamados em cima da hora quando o motoboy fixo ou que sempre prestou serviços para determinada empresa entra em férias, falta ou se acidenta. Há quem tenha CNPJ de microempreendedor individual, mas continua ganhando por entregas. Também têm aqueles sem curso de motofretista e fazem “bico”, assim como também têm aqueles motoboys que são contratados fixos das empresas que fornecem, em alguns casos, as motos para eles trabalharem.

      Engana-se quem pensa que todos os motoboys trabalham para uma só empresa: alguns chegam a ter 3 ou 4 empregos e retornam ao trabalho sem terem se recuperado completamente de um acidente. Uma pesquisa publicada em janeiro de 2020 ajuda a traçar um perfil dos motoboys no cargo CBO 5191-10 trabalhando em Blumenau.

      Ser motoboy na pandemia

      O cenário de pandemia de Covid-19 aqueceu o mercado para os motoboys em Blumenau e região, principalmente nas primeiras semanas, quando bares, lanchonetes, sushis, pizzarias, outros tipos de comércio e similares fecharam as portas e o atendimento era por delivery. Mais quantidade de pedidos, mais oportunidade de trabalho em um cenário sem muitas garantias: trabalho informal para pequenas empresas, não recebem adicional noturno, por insalubridade e periculosidade. Caso se acidente, é substituído por outro.

      Roberto (nome fictício) tem 21 anos e trabalha como motoboy desde a 1ª habilitação. Antes da pandemia, já trabalhava em 3 empregos fazendo entregas e nenhum deles com carteira assinada. Durante a pandemia, começou a trabalhar mais, a ganhar mais e não recusa serviço, mas também a se arriscar mais. “Se a gente não correr e não pegar atalho, a comida chega fria e quem escuta desaforo é o motoboy”, tenta justificar. 

      Diego (nome fictício) diz que o patrão não quer nem saber. “Se o cliente liga reclamando da demora, o telefone não pára de tocar e eu tenho que atender pilotando mesmo, porque pode ter algum pedido pra longe, que foi cancelado e eu perco a viagem”, diz. Ele conta que recebe de R$ 3 a R$ 4 por entrega e é a única forma de ganhar a vida. “Ás vezes, a gente tem que fazer umas bandalhas no trânsito pra dar conta. Se eu for pilotar a moto como se fosse um carro, não arrumava bico em lugar nenhum”, conta.

      Mas o caso mais curioso foi o de Bruno (nome fictício). Ele mal tinha se recuperado de um acidente, ainda mancava, tinha os braços ainda machucados do tombaço, passou por cirurgia para implantar pinos na mão e perna esquerda e trocava as marchas da moto com um cabo de vassoura improvisado. Quando perguntei se ele não tinha medo ou se tinha noção do risco que era conduzir uma motocicleta desse jeito, ele disse: “já tô 3 meses parado por causa do acidente e se não trabalhar não tem comida na mesa”. Meio sem jeito, ele completou: “o cano de vassoura fica aqui escondidinho, ninguém vê não. A senhora só viu porque eu vacilei quando desci da moto”.

      Um desses entregadores não quis dizer o nome mesmo com a garantia de anonimato e contou que tinha se tornado microempreendedor individual (MEI) para trabalhar com aplicativos de entrega. “Mesmo assim tem dono de lanchonete e de pizzaria que prefere contratar por fora quem é MEI porque aí eles não assumem a responsabilidade quando o motoboy se acidenta”, contou.

      Pesquisa traça perfil de motoboys em Blumenau

      O site salario.com.br coletou dados salariais oficiais do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) da Secretaria da Previdência e Trabalho do Ministério da Economia (antigo MTE) e publicou uma pesquisa sobre os motoboys em janeiro de 2020. Os dados foram coletados no período de maio a dezembro de 2019 a partir de 181 salários atualizados à época. Incluiu motofretistas, motociclistas no transporte de documentos e pequenos volumes, ciclista mensageiro e condutores de bicicleta no transporte de mercadorias que foram admitidos ou desligados de empresas em Blumenau que os contrataram no cargo CBO 5191-10. Dos 181, apenas duas mulheres. Clique aqui para acessar a pesquisa completa: https://www.salario.com.br/profissao/motoboy/blumenau-sc/

      Contratações formais em baixa

      A pesquisa concluiu que os motoboys contratados pela CLT ganham entre R$ 1.445,84 (média do piso salarial 2020 de acordos, convenções coletivas e dissídios) e o teto salarial de R$ 2.445,04, sendo que a média salarial fica em R$ 1.584,15 para uma jornada de trabalho de 43 horas semanais. O perfil é o de um profissional com média de idade de 27 anos, ensino médio incompleto, do sexo masculino, que trabalha 44h por semana em microempresas que atuam no segmento de lanchonetes, casas de chá e sucos; entregador de gás, entregas rápidas, lojas de peças para veículos e similares.

      Antes da pandemia era uma demanda de trabalho formal considerada restrita: entre maio e dezembro de 2019, houve uma queda de 33,33% nas contratações formais com carteira assinada em regime integral de trabalho. Insalubridade e periculosidade são adicionais salariais não cumulativos. O motoboy deve optar por um ou pelo outro e ainda assim o pedido só é feito em causas trabalhistas ou por acordo coletivo com mediação do Sindicato de Motociclistas e Ciclistas de Entregas Rápidas.

      No entanto, um empresário do ramo de alimentos e que contrata na formalidade os motoboys também fornece as motos de frota própria, paga os cursos de atualização, mas não perdoa: “eu contrato eles de carteira assinada, mas se ficou provado que o meu funcionário foi o culpado pelo acidente eu cobro dele cada centavo do prejuízo.”  O empresário diz ainda que fica de olho nas infrações dos motociclistas que contrata: “eu pego no pé mesmo porque daqui a pouco posso ter que demitir um motoboy porque vão ficar com o direito de dirigir suspenso e não tenho outra colocação pra eles.”

      Infrações graves e gravíssimas

      Com os quatro motoboys com quem conversei, todos admitiram ter cometido infrações como avanço de sinal vermelho, fazer retorno ou transitar pela calçada, além de ultrapassagem em local indevido, principalmente em linha contínua simples ou dupla amarela. Um deles não sabia o valor da multa e ficou espantado quando eu disse que era de exatos R$ 1.467.35. “Tá louco, dona! Nem trabalhando dia e noite eu consigo pagar isso”.

      Pela somatória dos pontos de infrações que ele lembrava de cabeça, o Detran já poderia abrir processo para a suspensão do direito de dirigir. Os quatro motoboys admitiram que se tivessem o direito de dirigir suspenso continuariam a trabalhar mesmo assim por dois motivos: a moto é que põe comida na mesa e paga as contas, e porque os patrões não olham a carteira de habilitação quando vão contratar para entregas. “A gente não é funcionário deles, eles pagam por entrega e como não podem ficar sem motoboy na hora do aperto contratam de boca, por noite”.

      Profissão perigo

      A frota de veículos de duas rodas incluindo motos, motonetas e ciclomotores é de mais de 1 milhão e 125 mil em todo o estado de Santa Catarina, segundo dados atualizados do Detran SC (2020). Em Blumenau, eles somam 48.284, o que representa 4,2% da frota estadual. Pesquisas apontam que sempre que um motociclista perde o emprego formal ele acaba caindo no mercado informal das entregas fazendo bicos para lanchonetes, pizzarias, casas de sushis e similares até que volte ao mercado formal. Alguns tornam-se microempreendedores individuais para trabalharem com aplicativos de entregas ou para continuarem prestando serviços e recebendo por entrega feita: se o cliente desiste do pedido não é todo patrão que paga.

      Entre muitos motoristas, a representação que se tem do motoboy está na razão direta do que externam com certa agressividade: são uns abusados no trânsito, umas pestes, pragas e há quem diga que, pelo tanto de besteiras que fazem nas vias, ainda morre pouco. Pior é quando aprontam no trânsito e tiram a vida de inocentes. Com os quatro motoboys com quem conversei, três negaram fazer uso de álcool e drogas para aguentar a jornada puxada de trabalho. Um deu um sorriso meio maroto sem confirmar nada, mas todos admitiram: “ah, isso tem, é. Vai de cada um.”

      E assim temos os dois lados da moeda: nem todo motoboy é “vida loka”, mas eles existem por aí; são pessoas que perderam os seus empregos e foram para a informalidade, alguns trabalhando sem sequer se recuperar do último acidente. Trabalham para colocar comida na mesa, pagar as contas e sustentar a família. Recebem por entregas, são cobrados pela demora mesmo quando os pedidos atrasam no balcão, muitos vivem de “bicos” e são contratados de boca para quando tem serviço.

      Por outro lado, alguns costumam cometer muitas infrações, admitem que fazem bandalhas no trânsito e que continuariam trabalhando se tivessem o direito de dirigir suspenso porque só sabem fazer isso e é a moto que põe comida na mesa e paga as contas.

      E você leitor, qual é a sua opinião em relação à realidade trazida no texto de hoje?  Mudou a sua opinião e a representação que tem dos motoboys e de quem os contrata?

      Texto escrito por MÁRCIA PONTES

      Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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