Início Política Política: a Covid-19 mudou o mundo, por Luiz Carlos Nemetz

Política: a Covid-19 mudou o mundo, por Luiz Carlos Nemetz

Desde os primórdios da humanidade, de quando em quando, temos saltos na evolução da civilização. Em 2018 estive por uma temporada em Israel. Lá pude perceber a grande influência judaica cristã nos nossos comportamentos e costumes. Os relatos de Flávio Josefo, o historiador judeu que fez os registros ao Imperador Romano estão lá, vivíssimos em vários monumentos, como nas muralhas de Massada e de Qumran.

Acelerando o processo, chegamos ao obscurantismo e ao iluminismo (ou renascimento – como queiram) da idade média. Já no século passado, acontecimentos memoráveis que mudaram o curso da história: as revoluções da Rússia e da China, as 1ª e 2ª Guerras Mundiais; e muito recentemente a revolução tecnológica. Poderia rechear essa modesta síntese com milhares de outros acontecimentos. Mas nada foi tão impactante como o nocaute da Covid-19 no comportamento humano.

As imagens marcantes da Praça de São Pedro com um Papa rezando sozinho, penso ao caminhar; a Times Square completamente vazia com trabalhadores lacrando vitrines das lojas, que até então eram o símbolo da opulência; a queda do valor das ações de empresas que pareciam intocáveis na sua saúde financeira; ver pessoas de todas as nacionalidades, classes sociais, etnias e idades usando máscaras; os teatros, estádios, igrejas, museus, praças e praias vazios; aeroportos às moscas e aviões estacionados; restaurantes e hotéis vazios; as covas abertas por tratores. Tudo isso e muito mais, foi e segue sendo muito impactante.

Estudos sociológicos, econômicos, políticos, jurídicos, matemáticos, farmacológicos, médicos e psicológicos serão feitos por muitas décadas sobre o que aconteceu nesses dias deste primeiro semestre de 2020. O impacto também atingiu e revelou o caráter de muitas pessoas. As gerações futuras não irão acreditar quando souberem que no meio desse flagelo assustador existiram seres humanos aos quais não encontro palavras para desqualificar, que se aproveitando da situação, passaram a roubar. Isso mesmo, roubar! Não somente dinheiro, mas vidas e esperança de milhares de outros seres humanos, desviando dinheiro público que deveria ser aplicado na compra de equipamentos e medicamentos para acumular riqueza.

Outro choque notável foi na sociabilidade. E este, mereceria a análise de milhares e milhares de ângulos. O confinamento em casa revelou almas generosas que se juntaram pelos meios digitais para fazer lives nas mais variadas plataformas sociais para ajudar a entreter seus semelhantes. Outros milhares foram para as janelas e varandas, tocar seus instrumentos; os aplausos espontâneos em gratidão às equipes de saúde no entardecer de cada dia; a recomposição da natureza em várias cenas que ficaram marcadas, como por exemplo, a visibilidade do Everest; as correntes que juntam bilhões de pessoas de credos os mais variados em orações programadas para certas horas do dia, mundo afora; o home office e a dispensabilidade quase que absoluta dos escritórios físicos para determinadas profissões (a minha de advogado é uma delas); o avanço em dois meses de séculos na telemedicina; as tele conferências; as salas digitais de reuniões; os web binar; o reencontro das pessoas com seus lares e com o valor das suas famílias presentes mesmo na ausência. A Páscoa celebrada pelos Judeus e Cristãos tendo cada qual a experiência, ainda que extremamente tênue, de pequenino calvário provocado pelo medo; o mês do Ramadã pelos Muçulmanos vividos de modo a facilitar uma busca interior; o Dia das Mães afastado das mães. Tudo, absolutamente tudo está sendo impressionante.

Bem nesse tempo, reli uma obra, que já havia lido nos anos 90 e que novamente me causou uma profunda reflexão. É o relato feito em um dos seus 32 livros pelo médico Viktor E. Frankl, que foi professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Viena e que fundou a “logo terapia” considerada a terceira escola vienense de psicoterapia. Em seu marcante livro “Em Busca de Sentido”, ele narra na primeira pessoa, os seus três anos vividos como prisioneiro nos campos de concentração nazistas no curso do holocausto. Nesse livro, o autor relata como sentiu e observou o próprio comportamento dos demais prisioneiros expostos a situações limites.

Ainda não é possível saber quais serão todos os reflexos em todas as áreas da existência humana dessa pandemia nos comportamentos coletivos da humanidade, e em cada pessoa. Mas já é possível concluir que está sendo uma imensa chance de evoluirmos décadas (ou mesmo séculos) em meses. Esse pequeno ciclo de pouco mais de 10 semanas vai nos ajudar a buscarmos a fonte da vida na nossa liberdade interior para valorizarmos a existência, as relações afetivas essenciais e o simples ato de viver.

Da revolução francesa até nossos dias, as palavras mais charmosas a definir a cidadania e a existência eram: liberdade, igualdade e fraternidade. A meu juízo, a partir da Covid-19, serão: simplicidade, intensidade e solidariedade. Ou seja, redescobrimos e redefinimos valores.

Ainda ontem, recebi de meu médico e também amigo Morton Scheinberg, um tocante artigo da médica e articulista americana Lisa Rosenbaum, no qual conta seu drama – de na condição de integrante do grupo de risco (portadora de Lupus) e vinda de uma família de médicos – ter que ficar em casa sem poder cumprir sua missão profissional. Assim como milhares de pessoas que estão confinadas, ela concluiu que (numa tradução livre do texto em inglês): “Aqueles que cuidam desses pacientes, assim como todos os outros trabalhadores essenciais em todo o mundo que arriscam suas vidas, sempre serão heróis. Mas a pandemia também revelou um tipo de heroísmo silencioso: o de bilhões de pessoas a quem pedimos para ficar em casa, abandonar seus meios de subsistência e deixar de lado suas próprias identidades para evitar mortes que não podem ver. Não haverá desfiles para essas pessoas. A maioria não será capaz de conectar seus sacrifícios a nenhuma vida salva. No entanto, também há heroísmo em suas histórias. Escrever o script pós-pandemia será difícil. Mas se lembrarmos que todos têm um papel a desempenhar, as páginas vazias serão novamente preenchidas com histórias”.

Texto escrito por LUIZ CARLOS NEMETZ

Luiz Carlos Nemetz é sócio fundador da Nemetz, Kuhnen, Dalmarco & Pamplona Novaes Advocacia. Atua na Gestão Estratégica e nas áreas do Direito Médico e da Saúde, Direito de Família e Direito Empresarial.

Especialista em Economia e da Empresa (pós-graduação) pela Fundação Getúlio Vargas, habilitação para Docência, bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau na turma de 1983.

Professor concursado de Direito Processual Civil e Direito Econômico da Universidade Regional de Blumenau (FURB), onde atuou por 17 anos. Professor das cadeiras de Direito das Coisas e Direito Processual Civil, Execuções, pela Faculdade Bom Jesus de Blumenau (FAE), no ano de 2009.

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