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Trânsito: mulher faz a diferença no trânsito só na hora de vender o carro? Por Márcia Pontes

Quem é que já não leu a frase “carro de mulher” ou “única dona” em qualquer lugar em que se publique anúncios de vendas de veículos? Muitos que publicam a isca para impressionar os potenciais compradores são justamente eles, os homens, aqueles que já repetiram a frase “mulher ao volante perigo constante”. Então, se mulher ao volante é mesmo um perigo constante, não seria uma contradição tentar supervalorizar o veículo dizendo que pertence a uma mulher? Atrás do volante com o carro em movimento, elas também fazem a diferença: são as queridinhas das seguradoras porque quando se envolvem em colisões é de pequena monta e isso torna o seguro mais barato para a mulher, são minoria nas estatísticas de acidentes quando são as condutoras, mas se tornam as principais vítimas quando estão de carona na moto ou no carro conduzidos por quem diz que elas é que são um perigo constante. Vamos falar mais sobre isso?

Então vamos às estatísticas. Em Blumenau, durante todo o ano de 2019: dos 642 acidentes oficialmente registrados na cidade, 8 em cada 10 foram protagonizados por homens ao volante. No total, 78% das ocorrências tinham condutores do sexo masculino, enquanto apenas 22% eram mulheres dirigindo. Dentre os 29 mortos no trânsito, 15 eram homens e outras 7 vítimas eram mulheres: 3 passageiras de motos conduzidas por homens, 2 eram passageiras de carros dirigidos por homens e 2 eram pedestres em veículos conduzidos por homens. As estatísticas são oficiais da Seterb/GMT.

Não são poucos os estudos estatísticos, comportamentais e da seara da Psicologia Social e Psicologia do Trânsito que demonstram que os homens buscam auferir mais vantagens sociais do que as mulheres ao volante, dentre elas, mostrar que dirige melhor ou que tem mais “braço” do que os outros homens; destacar-se em determinado grupo do qual faz parte; impressionar as mulheres e até outros homens pelas habilidades que têm ou que pensam que têm ao volante.

A percepção de riscos também costuma ser maior entre as mulheres que dirigem com mais cuidado, mais cautela, menos pressa. O medo de dirigir ou a amaxofobia prevalece em 80% do público feminino e muitos acidentes por imperícia são registrados quando os homens da família (namorados, maridos, irmãos, primos, etc) se predispõem a “ensinar” a dirigir do jeito deles. Resultado: colisões e graves sequelas físicas e emocionais dentre as condutoras iniciantes. Isso quando não culpam a própria mulher pelo acidente com aquele “tinha que ser mulher mesmo!”

Falar nisso, os homens que dirigem são os mais autuados pela fiscalização de trânsito em relação às mulheres motoristas. Muitos são os mesmos homens que não cansam de disparar aquela velha frase: “Olha lá, tinha que ser mulher mesmo, não falei?” E mesmo quando são eles os causadores do acidente, em meio aos relatos de truculência nas palavras e nas atitudes dignas de um Brucutú das cavernas, muitos homens já saem culpando as mulheres que estavam no outro veículo.  

Existe um peso morto cultural bem grande que faz com que os meninos tenham acesso ao veículo de forma precoce na própria família. Cultural e socialmente, o homem é mais cobrado a dirigir do que as mulheres como se tivesse a obrigação de aprender cedo, nunca sentir medo ou ter dificuldades para dirigir para não passar atestado de frouxo. Daí a sociedade pega pesado nos brios masculinos e lhes causa um sofrimento velado que aterroriza e envergonha. Parecido com aquela velha história de que homem não chora e ao volante tem a missão de ser o macho alfa.

Homens ainda predominam entre os habilitados

Em Santa Catarina, 62,22% dos motoristas são homens, segundo dados atualizados do Detran/SC. Os homens tendem a utilizar mais o veículo para trabalhar em relação às mulheres e nas famílias em que há somente um veículo elas só dirigem ou tentam treinar para ter prática aos finais de semana. Não raro sob a supervisão dos homens da família.

Se o acidente é a infração que deu errado, as estatísticas vêm demonstrando que não é de hoje que os homens vêm se arriscando mais no trânsito do que as mulheres. Muitas delas até se habilitam para dirigir na mesma idade que os homens mais jovens, mas muitas só assumem o volante de verdade muitos anos depois devido a uma série de dificuldades.

Dentre os motociclistas, os homens continuam sendo a maioria de uma frotinha que já contabiliza 48.777 veículos de duas rodas. Entre motocicletas (38.207) e motonetas (9.570), os homens disparam com 70,53% e apenas 29,47% são mulheres. Eles também dominam a maioria expressiva como entregadores e motoboys. Dentre a turma do grau, não se vê mulheres empinando motos e até entre crianças e adolescentes os meninos são a maioria entre os ciclistas que sonham em um dia conduzir uma motocicleta.

Dirigir preventivamente minimiza os fatores culturais

Vamos e convenhamos: seja homem, seja mulher que esteja dirigindo, têm muitos acidentes de trânsito por aí que poderiam ser evitados se o condutor ou a condutora tivesse mais atenção, se não estivesse distraído, se respeitasse a distância de segurança e se não confiasse demais nos outros para pautar as suas decisões ao volante.

Os homens são a maioria para dirigir em todas as categorias de habilitação, são os que mais se envolvem em acidentes com gravidade e óbitos no trânsito. O perfil psicoemocional e o modo de dirigir é diferente das mulheres. Muitos homens conduzem visando ganhos sociais e até por diversão. Os fatores culturais são heranças malditas, que acabam pesando nas decisões e escolhas que homens e mulheres tomam no trânsito, mas ainda assim a direção preventiva minimiza, e muito, os impactos e as consequências.

Tudo isso pesa, mas não somos só reféns da cultura no sentido de que “é o modo como fazemos as coisas por aqui”, porque sempre fazemos as nossas escolhas na vida e na via. Toda pessoa, independentemente do sexo, é resultado da soma de suas vivências por uma vida inteira e da visão que tem de mundo. É isso que norteia o seu modo de pensar, de agir, as suas crenças, as suas aprendizagens, comportamentos e atitudes.

Tudo isso pesa, mas o que também conta (e muito!) é a educação que se traz para a via, é o modo como cada um respeita as outras pessoas, as leis de trânsito, como pratica a tolerância, a empatia. É o modo como mantém o foco e a atenção quando está dirigindo e a percepção que tem dos riscos à sua volta que vai fazer a diferença.

Mulher ao volante é direção segura e elegante, mas não é privilégio só delas.

E você, homem ou mulher, que decisões vai tomar da próxima vez que for dirigir?

Texto escrito por MÁRCIA PONTES

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.

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