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Política: Bolsonaro, o grande “cabo eleitoral” das eleições municipais de 2020? Por Luiz Carlos Nemetz

No Brasil, desde sempre, a direita conservadora e liberal jamais conseguiu ter um líder carismático e puxador de votos. Tivemos Jânio Quadros, um biruta. Antes dele o Dutra, que foi um líder com consistência política, mas morno e apático, sem apelo eleitoral. Depois Collor, uma retumbante farsa. No mais, gravitaram presidentes de centro esquerda. Os mais iconoclastas foram Getúlio, que na verdade era um pêndulo ideológico populista, sempre pensando somente em si, e Juscelino, de centro esquerda conservador, que não teve oportunidade de seguir como líder em função do movimento de 1964.

Então, surgiu o líder de esquerda, Lula. Carismático, envolvente, mentiroso, dissimulado, cínico, ladrão, um ator feiticeiro que se transformou numa serpente encantadora de gente, que mobilizou as massas e o cenário político como jamais tivemos outro. Elegeu postes e até pior que isso, conseguiu a proeza trágica de fazer Dilma presidente, o que já pode ser considerado uma magia negra. Aniquilou o país e os valores da nação brasileira a ponto de nos colocar na beira do caos. Até que surgiu o improvável, o impensável e o quase impossível: Jair Bolsonaro, em quem ninguém apostava um centavo até o início de 2017.

Então, no tabuleiro do jogo de xadrez da política, guerreiam dois reis com seus exércitos. Um à esquerda, no momento um farrapo. Outro à direita, no momento em ascensão. Inegavelmente Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de usar sua capacidade de leitura para dizer e fazer o que uma massa populacional que sempre existiu, saísse da toca e partisse para o ativismo político em campo aberto, usando as mídias sociais. Sobretudo a classe média, que é conservadora nos costumes e valoriza o trabalho, o empreendedorismo e está cansada de carregar o Estado e as minorias nas contas e nas costas.

Aparentemente, num primeiro momento, se imaginou que pudesse ser mais uma onda. Um cometa. Mas não. Passado o primeiro ano de governo, a liderança do presidente ganha consistência sólida. No campo interno, resultados gerenciais nítidos no controle da economia, na condução da gestão pública, na diminuição do Estado, na austeridade com os gastos, no enfrentamento e no embate, na defesa da sua ideologia sem malabarismos e sem papas na língua, cortando privilégios e enfrentando as mídias tradicionalmente abastecidas pelo poder público com uma cachoeira de recursos. E isso vêm agradando a massa eleitoral.

Temos um governo com base de apoio social sólida, atenta e participativa. No campo externo, uma nova projeção do país no cenário internacional, com a retomada do prestígio e dos negócios. Não é pouco. Mas, no jogo de xadrez, cada time, antes de atacar o rei adversário, deve se preocupar com a estratégia e com a tática de proteger o seu rei. Prestígio político é uma coisa. Força eleitoral é bem outra. Ao que tudo indica, Bolsonaro segue tendo uma enorme carga de prestígio eleitoral, que somente cresce com os acertos da sua gestão, em que pese a forma truculenta como atua nas relações institucionais. Mas, pouco a pouco, vai ganhando consistência política ideológica, construída na base do liberalismo econômico aliado ao conservadorismo dos costumes.

No mundo, só ele e Donal Trump tiveram a coragem de enfrentar o politicamente correto para defender suas ideias. Bolsonaro foi ainda mais ousado. Optou por fundar seu próprio partido: o Aliança pelo Brasil. Seguindo as diretrizes do seu principal ideólogo o filósofo Olavo de Carvalho, movimentou-se no sentido de expurgar do seu lado os oportunistas e montar uma estrutura partidária purista, em defesa de um Estado mínimo, simples e eficiente, combatendo a velha política e as estruturas que aparelharam o mecanismos estatais nos três poderes, para fazer negócios e pilhar o erário.

Bolsonaro pode ter defeitos (e tem muitos), mas está absolutamente coerente com os compromissos que assumiu com a população. E isso traz confiança e segurança. Está sabendo jogar o jogo. E o eleitorado começou a perceber a importância da tática de proteger o seu rei, ao invés de atacar o rei adversário. Já eles, os adversários, se descuidaram desse princípio. Ao invés de cuidarem do seu rei, se preocupam de atacar o outro. O resultado é que a esquerda está totalmente desgastada, sem credibilidade, em frangalhos, com suas principais lideranças envolvidas até o pescoço em corrupção. O povo, os peões, não são bobos e percebem isso. Muito bem.

Então vamos trazer o assunto para perto de nós. Surgem duas perguntas: Qual será a importância do apoio do presidente Bolsonaro nas eleições municipais de daqui a pouco? E mais: o presidente vai querer entrar em bolas divididas? A primeira é fácil de responder: Bolsonaro já é e seguirá sendo o maior “cabo eleitoral” nas eleições municipais desse ano. Já o seu envolvimento é uma incógnita. Em outubro, estará perto de cumprir a metade do mandato, com vistas no horizonte da reeleição. Então, intuo, pelo seu comportamento ideológico purista que manifestou até aqui, que somente se envolverá de cabeça nas candidaturas que estiverem alinhadas até o pescoço com o que ele pensa.

Não vai mais se meter em aventuras com traíras tipo João Dória, Joice Hasselmann, Carlos Moisés, Wilson Witzel e desqualificados do naipe de Alexandre Frota. A meu ver, o Aliança pelo Brasil vai fazer uma exigentíssima peneira de admissibilidade em seus quadros, seguindo rigorosos conceitos de purismo ideológico. O que convenhamos, não é comum na nossa história político eleitoral, sendo daí, uma bela mudança. Mas há um “oba oba” eleitoral colocando o bloco na rua. Aqui em Santa Catarina, de forma especial.

No sábado passado (dia 1º de fevereiro de 2020) o prefeito de Blumenau publicou nas suas redes sociais sua adesão ao partido do presidente. Pelas reações, pergunto: “será que ele combinou com os russos?” como disse Garrincha após uma preleção de um técnico da Seleção, dizendo para ele como deveria fazer para atacar os adversários. O movimento do prefeito, que já passou por vários partidos, soou extremamente oportunista junto ao eleitorado de Bolsonaro e foi orquestrado no Estado pelos líderes ligados à família Bornhausen. Gente de linhagem ideológica de direita, mas com um tremendo desgaste político e acostumados ao “toma lá dá cá” há mais de 100 anos.

Por outro lado, os aliados de Bolsonaro de 2018, como Carlos Moisés, estão tremendamente desgastados, pois não tiveram a leitura de terem sido beneficiados e não os protagonistas da “onda 17”. Ainda no âmbito estadual, outro fato chamou a atenção que revela o movimento de depuração ideológica no entorno de Bolsonaro. O ex-senador Paulo Bauer, que é outro ensebado de tanto rolar por partidos, derrotado fragorosamente em 2018, que nunca foi estrela de primeira grandeza, ocupava um cargo que ganhou como prêmio de consolação junto ao Ministério de Onyx Lorenzoni, que recebeu um grande aperto de Bolsonaro no seu retorno das férias. Para o público catarinense, Paulo Bauer fez circular uma mensagem dizendo que pediu para sair para se dedicar a construção de candidaturas nos municípios da sua base eleitoral. Balela! Foi desmentido no mesmo dia. Foi exonerado a mando de Bolsonaro, exatamente em nome do purismo ideológico que busca implantar no governo e que será base da estrutura das lideranças do Aliança pelo Brasil.

Aqui em casa, a batalha promete ser dura. Mário Hildebrandt vai buscar a reeleição ancorado na companhia das lideranças que estão no paço há 30 anos. Isso tem um peso. Embora bom gestor, sua tentativa de encostar no presidente parece ser legítima e inteligente, mas não sei se convence o eleitorado da lealdade de propósito. E novas candidaturas se lançam, como a do talentoso e trabalhador deputado estadual Ricardo Alba (que foi o mais votado no Estado em 2018). Porém, Alba também se distanciou de Bolsonaro e esse distanciamento pode lhe custar muito caro, pois imediatamente a base do presidente sentiu falta de firmeza do principal líder do governador na Alesc, que tentou ficar com o pé em duas canoas.

Por ora, os times estão se formando. E tenho a convicção que nessas eleições o técnico vai literalmente definir o jogo. Resta somente saber qual o time vai querer treinar.  

Texto escrito por LUIZ CARLOS NEMETZ

Luiz Carlos Nemetz é sócio fundador da Nemetz, Kuhnen, Dalmarco & Pamplona Novaes Advocacia. Atua na Gestão Estratégica e nas áreas do Direito Médico e da Saúde, Direito de Família e Direito Empresarial.

Especialista em Economia e da Empresa (pós-graduação) pela Fundação Getúlio Vargas, habilitação para Docência, bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau na turma de 1983.

Professor concursado de Direito Processual Civil e Direito Econômico da Universidade Regional de Blumenau (FURB), onde atuou por 17 anos. Professor das cadeiras de Direito das Coisas e Direito Processual Civil, Execuções, pela Faculdade Bom Jesus de Blumenau (FAE), no ano de 2009.

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