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Darlei Pisetta: “Hoje está sendo um dia muito difícil”

08 de fevereiro de 2019. Acontecia uma das maiores tragédias envolvendo o esporte no Brasil. O incêndio do alojamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, não deixou apenas os 10 mortos – garotos que tinham entre 14 e 16 anos. Deixou também um abalo coletivo, reflexões e saudades.

08 de fevereiro de 2020. O vazio que essa saudade instaurou diminui na mesma velocidade que as questões burocráticas de indenização às famílias das vítimas avançam: lentamente.

Nosso colunista Emerson Luis esteve com os pais de Bernardo Pisetta, um dos meninos que estava alojado no Ninho do Urubu no dia do acidente. Em Indaial, no apartamento da família, hoje é considerado um dos dias mais difíceis desde a morte de Bernardo. “Diferente do dia em que tudo aconteceu, hoje estamos de cara limpa. A dor é maior”, afirmou o pai Darlei Pisetta. Acompanhe a entrevista:

Emerson Luis: Sr. Darlei, logo na nossa chegada, o senhor comentou que hoje é um dia difícil. Como está sendo pro senhor, pra dona Leda, este sábado, um ano depois?

Darlei: É um dia diferente. A gente achava que poderia ser um dia como os outros – claro, com a dor que não passa – mas não é. As memórias do acidente vêm. Já pela manhã recebemos várias mensagens de apoio, de amigos. Isso tudo deixa a gente muito emocionado, com a cabeça muito bagunçada. Sabemos que as pessoas fazem isso porque gostam da gente, porque gostavam do Bernardo, e temos que dar continuidade. Mas realmente é um dia mais difícil que os outros.

E.L: O mais difícil até agora?

Darlei: Sim, acho que sim. No dia do acidente também foi, mas no fim a gente toma um remédio ou outro e se segura. Hoje a gente está de cara limpa, de alma limpa e isso está pesando.

Foto: Redes Sociais

E.L: A família está passando por um acompanhamento psicológico, que está sendo custeado pelo Flamengo, certo? Tem que ter um apoio, uma ajuda, porque não é fácil segurar essa barra…

Darlei: É verdade. A gente tem ajuda psicológica tanto do pessoal do Flamengo como de uma psicóloga em Blumenau, que é custeada pelo clube, ajuda de remédios, da família, porque senão a gente não segura a onda sozinho, não. São momentos muito difíceis. Bernardo era um menino que tinha uma vida promissora pela frente, muito educado, muito querido. Então como ele estava nesse meio do futebol , a gente vê a evolução dos outros meninos, companheiros dele e lembra que poderia estar acontecendo com ele também dói muito pra gente.

E.L: O senhor falou das inúmeras mensagens recebidas na manhã deste sábado e sempre citou a falta de sensibilidade do Flamengo. Entre essas mensagens, alguma do clube?

Darlei: Não. Infelizmente, não. O Clube de Regatas Flamengo é enorme, gigante, teve uma homenagem ontem da torcida do Flamengo, que pintou a imagem dos meninos no muro do Maracanã, eles escreveram uma frase: “A torcida do Flamengo que é grandiosa deixa o clube grandioso”. Eu acho que a diretoria do Flamengo poderia ter tomado uma atitude simples, tão fácil de resolver: uma homenagem, um apoio da diretoria nos confortaria.

Torcedores do Flamengo homenageiam vítimas do incêndio no muro do Maracanã. / Foto: foxsports.com.br

E.L: E estamos falando de uma homenagem simples, de carinho, de afeto, que nunca veio da diretoria do clube.

Darlei: Por parte da diretoria do Flamengo nunca existiu isso. O pessoal, psicólogos, os profissionais lá do Flamengo sempre vêm nos tratando bem. Agora, a diretoria do Flamengo, não. Falta essa sensibilidade, esse lado humano, Nunca é tarde pra se resolver uma situação. Acho que a humildade é a chave de qualquer negócio. Se a gente tem humildade, consegue chegar muito mais longe. Se eles tivessem essa humildade de conversar, de vir procurar a agente, seria bem diferente. Eu estive no Rio. Estive no CT, estive na Gávea. Não fui recebido pela diretoria. Fui recebido – muito bem recebido, que fique claro – pelos funcionários. Se o presidente quiser vir na minha casa, eu vou recebê-lo, pela porta da frente. Então, assim: presidente Landim, se tiver humildade, ele nos recebe, ele nos procura. Eu não fiz nada contra o Flamengo. Se alguém fez algo pra mim foi o Flamengo. Meu filho faleceu lá dentro. Somos pessoas do bem, todas as famílias são pessoas do bem. Nenhuma fez o mal pro Flamengo. Nossos filhos faleceram lá dentro. Nada mais justo querer que um diretor do clube deste tamanho, dessa magnitude venha nos procurar.

Foto: Redes Sociais

E.L: E a indenização financeira é um detalhe muito pequeno diante de tudo o que aconteceu, diante de uma história, de uma carreira brilhante interrompida do Bernardo. Vocês ainda não acionaram a justiça, estão tendo paciência. Como está esse processo?

Darlei: A indenização é um processo natural, tem que existir, acho que a gente tem direito a isso. A indenização não é um dinheiro que é bem-vindo, mas precisa existir. Valores? Eu estipulei um valor que eu acho que é justo, que não é nem um valor altíssimo, como o presidente e o vice-presidente estão comentando. Daí eu lhe pergunto: e se fosse o filho dele, será que esse valor seria altíssimo? Ou seria o valor de um Gabigol? Nada contra ele, ele está no momento dele, ganhando o dinheiro dele. Mas é um contrassenso. Um presidente que sai daqui e vai pra Europa negociar a vinda de um jogador e não podem fazer 900 km de avião e não pode vir a Santa Catarina falar com uma das famílias, ou ir a Volta Redonda, que dá 150 km do Rio conversar com outra família, ou mesmo no Rio de Janeiro falar com outra. Então não há sensibilidade, não há respeito pelas famílias. Se houvesse, isso já teria sido feito. Essa é a nossa indignação. Essa é a nossa cobrança. A indenização tem que existir. Mas vida nenhuma tem preço.

Foto: Redes Sociais

E.L: Ainda mais a de um menino de 14 anos, que ia traçar uma carreira brilhante…

Darlei: Eu até fico indignado com as falas do presidente quando ele diz que talvez nenhum daqueles meninos iria jogar no profissional do Flamengo. Nenhuma daquelas crianças que estava lá era ruim de bola, porque pra entrar lá tem que ser bom. O Bernardo não fez um teste pra entrar no Flamengo, ele foi contratado direto. O Bernardo foi treinar com o profissional, eles não colocam qualquer um pra treinar com o profissional. Não colocaram pra agradar o menino, eles não têm essa sensibilidade. Colocaram porque ele realmente era bom. Ele chegou lá como quarto goleiro, mas em seis meses já estava disputando titularidade. Já estava sendo visto pela CBF. Um dos diretores bateu nas costas do meu filho e disse “E aí, meu goleirão?!”, em entrevista declarou que ele tinha potencial, uma grandeza dentro dele. Treinador de goleiro da seleção brasileira de futsal falou a mesma coisa. Dai vem o presidente falando esse tipo de coisa. Ele mesmo se contradiz quando diz que “uma coisa é uma coisa, a outra coisa é outra coisa”. É muito infeliz.

Os dez meninos que não se salvaram no incêndio do alojamento no Ninho do Urubu. / Foto: imprensapublica.com.br

E.L: Seu Darlei, obrigado por nos receber. Por fim, qual o recado que o senhor deixa pros meninos que têm esse sonho de ser jogador de futebol em um grande clube.

Darlei: Eu acho que um menino que tem um sonho de qualquer coisa, ele precisa do apoio dos pais. Se os pais apoiarem, certamente esse menino vai ter um grande potencial e vai ser muito mais fácil pra ele. A mensagem é: pais que podem apoiar, apoiem. Nós fizemos tudo o que podíamos pelo Bernardo. E faríamos tudo de novo. Uma outra mensagem que eu quero ressaltar, que foi a homenagem que a torcida fez: “A grandeza do Flamengo está na humanidade da torcida”. Presidente Landim: vá até o muro do Maracanã e leia essa frase, quem sabe o senhor reflete e venha nos procurar. Isso que eu gostaria, essa é a nossa dor. Essa falta de respeito com as famílias nos machuca muito. Sempre há tempo para reparar isso. Que ele tenha humildade e venha nos procurar.  

Dona Leda, mãe de Bernardo, está muito emocionada e pediu para não falar hoje. A ela, ao Murilo (irmão do Bernardo) e ao seu Darlei, um abraço fraterno de toda a equipe do Portal Alexandre José.  

Darlei e Lêda, pais de Bernardo, na casa da família em Indaial, onde receberam nosso colunista Emerson Luis. “Daquelas entrevistas difíceis de se fazer”, relata o jornalista.

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