Subtenente Valério se aposenta e deixa o Corpo de Bombeiros de Blumenau

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Fotos: Arquivo pessoal

Sexta-feira, dia 15 de março de 2019, 8h da manhã. Fim do último serviço, despedida dos colegas de farda, banho de mangueira para marcar a data. O subtenente Valério agora faz parte da reserva remunerada do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina. Deixa a corporação depois de 33 anos de trabalho para se dedicar integralmente à família.

Valério Valmor Pereira é natural de Biguaçu, na região da grande Florianópolis. Veio para Blumenau ainda criança, com os pais, aos sete anos. Mas pode – tranquilamente – ser considerado um cidadão blumenauense, porque foi na cidade que ele constituiu família e escreveu sua própria história.

O jovem iniciou sua carreira militar no Exército e ingressou no Corpo de Bombeiros aos 19 anos, em 1986. Começou como soldado, depois tornou-se cabo, sargento, até chegar ao posto de subtenente. Atuou em situações de crise, como a tragédia de 2008 em Santa Catarina e em Brumadinho (Minas Gerais), no resgate de corpos na lama.

Com tanta experiência e histórias para contar, Valério enche a boca para falar que tudo que ele tem hoje é graças ao Corpo de Bombeiros. Foi como bombeiro que conheceu a mulher que virou sua esposa, Andréia, em uma simples ocorrência de corte de árvore. Desta união, nasceram duas filhas e a neta Eloá, de dois anos e sete meses.

No último dia de trabalho, o subtenente Valério conversou com a repórter Jamille Cardoso, do Portal Alexandre José. Ele contou parte da sua trajetória profissional e se emocionou ao lembrar de gestos de carinho que recebeu da comunidade ao longo dessas três décadas de serviço em Blumenau. Confira a entrevista:

– Quando criança ou jovem, o senhor pensava em alguma outra profissão para a sua vida?

Nunca na minha vida eu pensei em ser bombeiro. Eu nem sabia o que era Corpo de Bombeiros. A gente sempre tinha a expectativa de, pelo menos, ser um trabalhador como o meu pai. O meu pai sempre trabalhou em uma empresa, assim como a minha mãe. Eles ganhavam os seus salários e nos mantinham. Eu não tenho lembrança de eu querer ser um advogado, isso ou aquilo. Eu tinha em mente que eu queria trabalhar e ter o meu ganho próprio, até para ajudar meus pais e a minha família. Foi por acaso que eu entrei para o Corpo de Bombeiros. Eu fiz a inscrição a convite de um amigo, passei nas provas e nunca mais saí.

– Quando o senhor entrou no Corpo de Bombeiros, como era a estrutura?

É uma longa data, muito se modificou. Eu posso dizer que tudo está diferente daquela época, porque hoje nós temos boas viaturas, uma comunicação excelente, o efetivo, o comando, as dependências. Não temos do que reclamar.

– O senhor lembra do seu primeiro atendimento como bombeiro, depois de formado?

É difícil, porque naquela época a gente era jovem. Tudo que vinha, era novidade. Eu não me apeguei muito à primeira ocorrência, como eu não me apeguei a nenhuma. Tenho lembranças de umas ocorrências legais, tem também ocorrências tristes, desde o resgate de um gatinho no alto de uma árvore até daquele acidente, daquele óbito, daquela pessoa que perdeu um membro, daquela pessoa que a gente conseguiu salvar, daquele que a gente trouxe a vida, como um parte emergencial, por exemplo.

– E que ocorrência mais lhe marcou, que o senhor guardou na sua memória?

Quando o Corpo de Bombeiros abriu o posto do Garcia, me lembro perfeitamente de uma ocorrência no horário próximo ao meio-dia, na saída do Colégio Governador Celso Ramos, na Rua da Glória. Tinham umas crianças na saída da aula, que estavam brincando na calçada. E uma menina teve a infelicidade de engatar a mochila no paralama traseiro de um caminhão caçamba. Com isso, ela foi arrastada para debaixo do pneu desse caminhão e o veículo passou por cima dela. Eu fiquei cuidando da cabeça dessa menina, conversando com ela, enquanto os outros colegas faziam o atendimento, mantendo-a numa posição parada. Depois, a gente conduziu a menina ao hospital. E muitos anos após, eu tive um contato com a mãe dessa criança. Ela me reconheceu e disse que a filha passou por várias cirurgias, mas que ela estava bem, estudava e tinha saúde. Eu não sei hoje como ela está. Deveria ter pego o telefone para contato ou o endereço. Eu me arrependo de não ter feito isso, para que hoje eu pudesse fazer uma visita e dizer: “eu me lembro de vc” e saber do paradeiro dessa menina.

– Esse tipo de retorno, como da mãe dessa menina, vocês (bombeiros) receberam com frequência? E quando recebem, isso faz bem?

Eu posso te contar outra situação para você ver como as coisas acontecem e como é gratificante. Além dessa ocorrência, tem outro caso que a gente atendeu na Alameda Rio Branco, de um incêndio, onde queimou todo o apartamento, no sexto andar de um prédio. Um local de difícil acesso pra gente combater, mas a gente conseguiu entrar e chegar ao único cômodo que ainda estava intacto, que era o quarto do casal, e retirar o marido e a mulher dali, em segurança. No outro serviço, eles foram até o quartel para nos agradecer, tanto ele quanto ela, em lágrimas.

– (Entrevista interrompido pelo choro) Não tem preço um “muito obrigado” desse?

Não tem. E esse é só um exemplo. A gente se torna uma pessoa muito conhecida. Blumenau me conhece por inteiro, em todos os bairros. Quando você começa a fazer parte dessa vida, você cria um laço que você fica amarrado à comunidade, amarrado ao comando, amarrado aos teus amigos dentro do batalhão. São 33 anos de serviço, mas desses 33 anos, com certeza, 11 anos eu dormi aqui, eu comi aqui, 24 horas eu fazia parte disso aqui. Eu deixava a minha família para servir ao meu quartel, para servir a minha comunidade.

– E como o senhor vai ficar longe dessa comunidade, que está tão agarrada em você?

O que eu vou dizer pra você? Eu fiz a minha parte, tanto com o meu quartel, com minha instituição, quanto com a minha comunidade. Não vou deixar de ser bombeiro porque estou em casa. Não vou deixar. Porque a gente é referência. Se você achar que eu não atendo ocorrência quando eu estou em casa, atendo sim. A hora que for. Já me ligaram de madrugada e eu saí da minha casa para atender. Apareceu qualquer tipo de situação que a comunidade sabe que eu sou bombeiro, eu sou um dos primeiros a ser lembrados. É claro que no bairro tem outros bombeiros que também fazem esse papel, mas uma vez bombeiro, sempre bombeiro.

Registro dos colegas de farda ao fim do último serviço

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